Como a ciência pode empoderar as mulheres e meninas

Na cultura ocidental, as mulheres sempre foram preteridas em termos de gênero, raca e trabalho. Como a ciência pode agir para mudar esse cenário?

O dia 8 de março, celebrado como o Dia Internacional da Mulher, foi oficialmente criado pela ONU (Organização das Nações Unidas) em 1977 para valorizar a luta pelos direitos das mulheres. Dentre os eventos que influenciaram a escolha da data estão o incêndio na fábrica de roupas Triangle Shirtwaist, em Nova York, em 1911, que chamou atenção para as terríveis condições de trabalho a que as mulheres eram submetidas; e a marcha das mulheres russa por pão e paz em 1917, que iniciou uma revolução de efeitos globais que reverberam até hoje. Atualmente, a data é um momento de reflexão em relação às conquistas de direitos e às discriminações e violências morais, físicas e sexuais ainda sofridas por muitas mulheres pelo mundo.

No meio científico, as mulheres também são desprivilegiadas. De acordo com a ONU Mulheres Brasil, apenas 30% dos pesquisadores do mundo são mulheres. Para refletirmos um pouco mais sobre o tema, entrevistamos a psicóloga Rocelly Dayane Teotônio da Cunha, docente do curso de Psicologia do Centro Universitário do Rio Grande do Norte (UNI-RN) e doutoranda do Programa de Pós-graduação em Psicologia da UFRN, que relatou suas experiências pessoais e descreveu os resultados de suas pesquisas sobre gênero e ciência.

Rocelly Cunha é doutoranda em Psicologia pela UFRN e docente do UNI-RN

Quais motivos ou experiências pessoais a levaram a se interessar pelos temas gênero, raça e ciência?

É um fato que desde a infância e adolescência eu sentia essa curiosidade de saber como as coisas são. Essa curiosidade estava presente em todos os âmbitos da minha vida. Na infância, eu queria saber, por exemplo, como a energia passava pelos “cabos pretos” que interligavam os postes de energia e como exatamente ela chegava até a minha casa. Para mim, era uma verdadeira mágica, e eu precisava saber o segredo daquilo.

Essa curiosidade foi me acompanhando até a graduação. A medida que fui participando de projetos de pesquisa, fui percebendo que a ciência, especialmente essa ciência ocidental que conhecemos, e a forma como ela opera no dia a dia, impõe às pessoas alguns “recortes”. Então, as perguntas que passaram a me acompanhar na graduação e me levaram à continuidade no mundo acadêmico, no mestrado e doutorado, foram: Quem pode ser pesquisador? E quem pode ser pesquisadora?

A partir desses questionamentos, fui buscando o que a literatura de ciência e gênero trazia. Essa literatura me apresentou que havia, realmente, um recorte de quem poderia ser pesquisador e pesquisadora, ao mesmo tempo em que eu mesma comecei a sentir, na pele, algumas dificuldades. Esse recorte era mais desvantajoso para as mulheres, pela dificuldade em participar do desenvolvimento do conhecimento na história da ciência ocidental. E era mais desvantajoso ainda para as mulheres de pele negra e as indígenas. Várias estatísticas viriam a comprovar o quantitativo inferior de mulheres negras e indígenas em relação às mulheres brancas na ciência, seja como líderes de projetos de pesquisa, como pesquisadoras do CNPq ou como professoras universitárias em cargos mais privilegiados. Todas essas descobertas que a literatura da ciência de gênero me apresentava foram culminando no meu desejo e no objetivo de entender como isso impacta, por exemplo, a área da Psicologia, da qual eu faço parte. As desvantagens que impactavam as mulheres estavam relacionadas principalmente ao maior afastamento delas dos projetos de pesquisa em relação aos homens, especialmente por questões domésticas e familiares.

O projeto Parent in Science abrange, especificamente, o impacto da maternidade na ciência. Mesmo que ascendam na ciência, elas geralmente não alcançam os cargos mais altos. Normalmente elas permanecem nos cargos ou bolsas de produtividade mais baixas do CNPq, como a PQ-2, por exemplo. Isso em todas as áreas. E, de maneira geral, no mundo, essas mulheres estão concentradas em áreas que são profissionalmente consideradas “femininas”, como por exemplo a própria Psicologia, especialmente nos países ocidentais. Essa realidade se repete de forma muito semelhante no Brasil.

O dia 8 de março nos lembra o incêndio que, em 1911, matou 146 trabalhadoras em uma fábrica têxtil de Nova York. Elas morreram não pelo incêndio, mas porque os gerentes da fábrica fecharam as portas do prédio em chamas para evitar o roubo de peças de roupa. De lá pra cá, as relações trabalhistas evoluíram, mas ainda há um longo caminho que nós mulheres devemos percorrer para atingir a igualdade no trabalho, na ciência e em diversas outras questões. Em qual ponto do caminho estamos, e como podemos avançar?

Essa pergunta é muito importante, especialmente hoje que estamos todas implicadas em aludir a esse dia. E muito difícil a luta em prol das mulheres, especialmente para nós que somos de gerações posteriores a essas mulheres que foram assassinadas por estas relações hierárquicas que nos subalternizam. E esse dia é muito importante porque é um dia de luta. A gente precisa lembrar desses momentos para saber o sentido da nossa luta diária e o motivo pelo qual precisamos reverberar essas lutas entre nossos colegas e familiares todos os dias. É claro que são cenários completamente diferentes, o que nós experienciamos hoje e este cenário a que nos aludimos. No entanto, pouco se fez em prol das condições das mulheres trabalhadoras, especialmente as mulheres trabalhadoras na ciência.

Projetos de pesquisa e muitas pesquisadoras têm estudado esse tema e referenciado como as mulheres se afastam mais da ciência por causa das famílias e dos filhos, e como isso tem um impacto muito maior na vida das mulheres em relação aos homens. Dentro da política científica nacional não há um plano que organize as condições para que essas mulheres possam concorrer com os homens de forma equitativa, por exemplo, em concursos para professores universitários, que normalmente estão associados ao trabalho do pesquisador e pesquisadora aqui no Brasil. Essas mulheres são submetidas aos mesmos prazos para a entrega de relatórios, pareceres ou projetos de pesquisa para agências de fomento, como o próprio CNPq, mesmo havendo esse impacto maior da maternidade na rotina e na vida das mulheres. Daí a necessidade da discussão de ciência e gênero continuar a partir desse viés das relações de gênero, porque a gente vai percebendo que essas dificuldades.

Houve um tempo em que algumas mulheres foram proibidas de participar da ciência, ou que a possibilidade de obter conhecimento lhes foi negada, como é o caso de mulheres negras e indígenas. Hoje nós ainda experienciamos as sequelas desses cenários anteriores. Às mulheres e homens são apresentadas condições de exigências iguais. No entanto, não se avalia que o cotidiano de homens e mulheres são completamente diferentes. Além do trabalho formal, a mulher é muito mais impactada pelo cuidado com os filhos e com a casa, que também são trabalhos, embora não remunerados. Essa mulher precisa se desdobrar muito mais para que consiga atender às exigências da ciência, especialmente no âmbito de hoje, muito marcada pelo produtivismo.

Mas se é possível mencionar o pouco que avançamos, especialmente de 2019 para cá, foi que nós vimos, no âmbito da ciência, mudanças em algumas universidades brasileiras, especialmente as localizadas no sul e sudeste, que têm colocado algumas condições diferenciadas para as pesquisadoras mulheres que são mães, tendo em vista esse impacto, segundo as pesquisas do Parent in Science, que as faz ter uma desvantagem de, pelo menos, cinco anos em relação aos homens. Considerando a maternidade e o afastamento dado pela licença maternidade, essas universidades têm reformulado os seus critérios de admissão de professores e de avaliação de projetos de pesquisa, considerando esse tempo e utilizando-o como um fator de impacto na carreira. Esses concursos e avaliações consideram a produtividade dessas pesquisadoras no período antes de terem filhos, quando possivelmente seriam mais produtivas e, assim, elas podem ser avaliadas em pé de igualdade com os homens, considerando o cotidiano completamente desigual entre os gêneros.

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